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Entrevista de Fevereiro de 2008, com o 50º Faixa Preta formado pela família Butantã.

 Wellington Elias Miyazaki

Uma arte marcial jamais é simplesmente repassada. Aquele que a absorve e depois a retransmite, já como professor, passa um pouco de si mesmo também.

O mestre Ciro, patriarca da família Butantã, aprendeu TKD porque tinha muito amor por essa arte, e ele a repassou para cada aluno embutida desse mesmo amor. O resultado disso é uma academia com muitos anos de tradição e muitos alunos, dentre os quais eu tive a honra de ser o 50º faixa-preta. Receber esse título, que simboliza um pouco da história da academia, é para mim um privilégio indescritível. Mas ainda mais importante do que isso, é saber que aprendi a treinar e a lutar com a paixão e a dedicação que o mestre Ciro sempre passou a todos nós.

O Taekwondo moldou minha postura, meu corpo e meu caráter. Por isso só tenho a agradecer a família Butantã.

Obrigado a todos

Wellington Elias Miyazaki 1º DAN.

1 Ficha técnica:

Brasileiro, solteiro, 25 anos.

Rua Maurício Antunes Ferraz, nº 117, bairro Previdência.

Nascimento: 05 de setembro de 1982 

                                                         TREINO:                                                                .

                             Professor Herbert Lima  (Em andamento)

                                                         CAMPEONATOS:                                                   .      

          Ano                Torneio                     Cidade/Estado        Graduação   Colocação

2. Há quanto tempo você pratica TKD? Qual sua trajetória?
 

R: Comecei a praticar TKD com o mestre Ciro na academia Butantã em 1996, quando eu estava na 6ª série. Eu havia brigado com um menino maior e mais velho e naturalmente levei a pior. Desde então decidi que iria aprender a lutar. Quem me levou para treinar pela primeira vez foi um colega da escola que já havia praticado TKD antes, mas em outra academia.

Durante o colegial, em 1998, interrompi os treinos por questões financeiras. Eu havia mudado para uma escola onde a mensalidade era mais cara e, como lá havia aulas gratuitas de caratê, acabei praticando essa outra modalidade de arte marcial, mesmo não sendo a minha preferência. Treinei lá até concluir o ensino médio, em 2000. No ano seguinte parei de treinar para me dedicar exclusivamente ao cursinho.

Só fui voltar a praticar TKD em 2002, em Bauru, cidade do interior de São Paulo para a qual me mudei para estudar jornalismo, e onde tive a honra de treinar com o mestre Mauro Hideki — que é amigo do mestre Ciro — e com o professor Vitor Souza, discípulo do mestre Mauro. Em Bauru tive o prazer de conhecer e ficar amigo de outros atletas com os quais aprendi muito sobre o TKD e sobre a postura de um artista marcial.   

No final de 2005 me graduei em jornalismo e votei para São Paulo, onde imediatamente retomei os treinos na academia Butantã. Ao retornar para minha academia de origem, pude rever os amigos antigos e conhecer alguns novos. 


3. Que influências o TKD teve na sua vida?

R: Todos que se interessam por uma arte marcial ao lerem essa pergunta geralmente já sabem a resposta. E comigo não é diferente: o TKD influenciou minha vida por completo.

Além do condicionamento físico, o TKD me ensinou a conviver em grupo, a respeitar a todos que estão a minha volta, a ter disciplina e, talvez o mais importante: a ter perseverança por tudo àquilo que se deseja de coração. 


4. Como surgiu o interesse por essa arte? O que te fez permanecer nela?

R: Desde criança eu adorava artes marciais. Adorava ver lutas nos filmes, desenhos e outros programas na TV, e tinha muita vontade de entrar em uma academia. Depois que comecei a treinar, vi uma série de outros benefícios que fizeram com que eu me apaixonasse de vez pelo TKD e tornasse essa arte uma parte fundamental da minha rotina, do meu dia-a-dia e da minha vida.

Um outro ponto decisivo para que eu continuasse treinando até hoje a mesma arte e na mesma academia é a excelente orientação que tive desde o início com o mestre Ciro e com os professores da academia Butantã, como Herbert, Laupo e Marcos.

 
 
5. Você, Wellington Miyazaki, é o 50º aluno a ser graduado pela Famílía Butantã com a faixa preta, o que isto representa pra você?

R: Ser o 50º faixa preta da academia Butantã foi o evento mais especial da minha trajetória como atleta. Quando fiquei sabendo pelo Herbert que eu receberia essa honra, em meio a tantos outros excelentes lutadores, me senti com uma responsabilidade ainda maior de fazer jus a minha faixa, e ao nome da academia que ela leva.

Ao mesmo tempo não me considero melhor ou pior que nenhum dos outros 49 graduados com esse título, e sei que qualquer um deles seria merecedor de estar no meu lugar simbolizando essa parte da história da Família Butantã.


6. Sabemos que durante a sua graduação como jornalista você teve que se afastar. Como se deu essa breve despedida? E o que o motivou a não desistir?

R: Quando tive que me mudar para Bauru para estudar jornalismo, eu levava comigo dois sentimentos principais: a saudade dos que ficavam e a ansiedade por saber como seria minha vida por lá. Essas duas coisas tinham a ver com o TKD, porque eu iria ver menos os amigos que fiz na academia e não sabia se teria como treinar na nova cidade. Felizmente tudo deu certo em Bauru e, durante as férias da faculdade eu sempre visitava a academia Butantã. Nunca passou pela minha cabeça interromper os treinos definitivamente. O TKD é para mim não é só uma modalidade de luta ou prática esportiva, mas sim uma forma de expressão. Através dessa arte eu me sinto mais atento a mim mesmo e mais preparado para enfrentar os desafios da vida, seja no âmbito pessoal ou profissional.       


7. Quando você voltou a São Paulo, já graduado profissionalmente, já voltou à academia Butantã? Por que? 

R: Sim. Voltei porque, como diz o ditado, “o bom filho à casa torna”.

A academia Butantã, como todos sabem, é mais do que uma academia, é uma família: a Família Butantã.

Eu me recordo que certa vez, quando eu ainda era faixa branca, vi dois alunos se empolgarem durante um treino de luta e começarem a brigar para valer, fugindo da orientação do mestre que havia mandado fazer apenas sombra (luta leve). O mestre interrompeu imediatamente e, quando todos esperavam uma bronca, ele falou de forma calma e serena: “esse tipo de coisa jamais pode acontecer aqui. Aqui vocês têm que ser mais do que amigos, aqui vocês têm que ser uma família”. Essa frase do mestre exemplifica exatamente os valores que ele sempre passou para os alunos, e que moldaram o perfil da academia-família-Butantã. Como me identifiquei com esses valores continuo aqui e espero sempre continuar.

  
8. Para muitos, artes marciais, como o TKD, representam violência e agressão. O que você teria a dizer para estas pessoas?

R: Simplesmente que assistam uma aula aqui na academia. Será o suficiente para desmistificar qualquer estereótipo que se tenha a respeito dessa arte. Claro que há academias que não seguem nossos mesmos valores, mas isso é fácil de se identificar vendo o comportamento dos alunos dentro e fora do tatame. Saber lutar é de fato um poder e isso atribui muita responsabilidade ao professor.

É preciso sempre desencorajar qualquer ímpeto violento de um aluno porque a agressividade é sinal de descontrole e pode gerar atos covardes. O TKD prega justamente o oposto: que você possa sempre manter o auto-controle para que este lhe garanta a coragem necessária para agir sempre de maneira íntegra.  
 

9. Você tem projetos envolvendo o TKD? Quais são? Que mudanças pretende alcançar?

R: À princípio, meu principal objetivo é continuar treinando, disputando torneios e ajudando na medida do possível a academia. Pretendo me desenvolver sempre no TKD para poder transmitir algo aos menos graduados, com os quais também aprendo muito.

Tenho um projeto particular que envolve tanto a atividade jornalística quanto o TKD, que é escrever a biografia do mestre Ciro. 
 
10. Você crê que o TKD promove mudanças na "qualidade de vida" de uma pessoa? Você tem algum exemplo de mudança provocada pelo TKD na vida de uma pessoa com algum problema nos setores sociais, físicos ou mentais?

R: Não tenho dúvidas dos benefícios que o TKD traz tanto para a saúde como para o desenvolvimento social de uma pessoa. Já presenciei casos de algumas crianças com problemas de hiperatividade ou falta de coordenação motora que apresentaram um quadro de melhora significativa após começarem a treinar. Em Bauru, por exemplo, havia uma criança com sérios problemas de comportamento em casa e na escola e, após começar a canalizar sua energia nos treinos ela ficou mais calma e disciplinada.